
Dossiê Hirbet Hiz’a: A Profecia de 1949 Finalmente no Brasil
Publicado originalmente em 1949, meses após o cessar-fogo da Guerra da Independência/Nakba, Hirbet Hiz’a não é um romance histórico convencional; é um testemunho ético escrito a quente por um combatente do Palmach. S. Yizhar evita a epopeia nacional para focar na microfísica da expulsão: a hesitação do narrador, a burocracia da violência e o silêncio forçado dos expulsos. A edição brasileira da Mundaréu, prevista para junho de 2026, chega com atraso de sete décadas, mas carrega o peso de ser a primeira tradução direta para o português, antecedida pelo texto de orelha de Milton Hatoum — sinal de curadoria literária séria, não oportunismo editorial.
O formato físico reflete a densidade da obra: 104 páginas em miolo offset (14 x 21 cm), lombada fina de 0,5 cm. É um objeto feito para leitura única, tensa, sem a distração de aparatos acadêmicos pesados. A tradução assinada como “Anônimo” gera desconfiança legítima em mercado editorial — costuma mascarar agências ou tradutores juniores —, mas a escolha da Mundaréu por não creditar pode indicar cláusula contratual do espólio de Yizhar ou opção estética de apagamento do mediador, jogando o foco inteiro na voz do narrador-soldado.
Por que esta edição importa agora
A literatura de testemunho israelense da fundação do Estado costuma oscilar entre a autojustificativa sionista e a autocrítica tardia (anos 80/90, “Novos Historiadores”). Yizhar quebra essa cronologia: ele escreve dentro do evento, sem o benefício da retrospectiva. Para o leitor brasileiro, a obra funciona como contraponto técnico às narrativas maniqueístas que dominam o debate público por aqui — tanto a hasbara oficial quanto o reducionismo anti-sionista que apaga a subjetividade do perpetrador.
O dilema do “bom soldado” como estrutura narrativa
O protagonista não é um vilão caricatural nem um herói trágico; é um funcionário da limpeza étnica que raciocina em tempo real. A prosa de Yizhar — longas frases hipnóticas, fluxo de consciência interrompido por ordens de rádio — mimetiza a exaustão moral. Não há catarse. O final não resolve a culpa; expõe a normalização do crime. Isso torna o livro incômodo para todas as trincheiras ideológicas, o que, em termos de mercado, explica o silêncio de 75 anos para uma edição em português.
Ficha técnica decisiva para a compra
- Editora: Mundaréu (selo de risco literário, tiragens curtas, acabamento honesto).
- Páginas: 104 — leitura de uma tarde, digestão de meses.
- Preço parcelado: 12x de R$ 5,55 (total R$ 66,70 com juros).
- Disponibilidade: Pré-venda com data dura (22/06/2026).
Quem busca entender a engenharia da expulsão de 1948 pela ótica de quem executou ordens, sem filtros pós-guerra, encontra aqui o documento primário definitivo. A edição pode ser garantida neste link da Amazon com o desconto de primeiro acesso no app (código VEMNOAPP), o que baixa o custo real para a faixa dos R$ 46 — preço de paperback importado por livro nacional de estreia.
Qual o contexto histórico exato em que “A história de Hirbet Hiz’a” foi escrita?
Publicado em 1949, meses após o fim da Guerra de 1948 (Nakba/Guerra da Independência), o livro reage a quente aos eventos. S. Yizhar, que serviu na inteligência militar, escreveu não como historiador, mas como testemunha ocular da expulsão de aldeias palestinas, quebrando o silêncio oficial israelense da época.
Por que a tradução para o português saiu apenas em 2026 pela Mundaréu?
Durante décadas, a obra foi tratada como “tabu” ou incômoda no canon sionista mainstream, limitando sua circulação internacional. A edição da Mundaréu marca a primeira tradução direta para o português, viabilizada por uma decisão editorial de resgatar vozes dissidentes fundamentais para entender a raiz do conflito atual, com posfácio de Milton Hatoum.
O livro é um romance ou um relato de memórias/documento histórico?
É uma novela (ficção) baseada em experiência vivida. Yizhar usa a liberdade literária para acessar a psicologia do perpetrador — a dúvida, a covardia, a racionalização — algo que um relatório militar ou memórias lineares não conseguiriam expor com a mesma densidade moral.
Qual a relevância da “tradução anônima” mencionada na ficha técnica?
O anonimato do tradutor, decisão da editora, funciona como camada de proteção e foco no texto. Em temas sensíveis do conflito Israel-Palestina, tradutores sofrem assédio e cancelamento; o anonimato desloca a atenção para a voz de Yizhar e a qualidade da versão em português, sem ruídos identitários.
Como Milton Hatoum contribui para esta edição brasileira?
Hatoum assina o texto de orelha (apresentação), trazendo seu prestígio literário e sua sensibilidade para temas de exílio, memória e identidade. Sua leitura ancorada na literatura latino-americana de testemunho ajuda o leitor brasileiro a dimensionar a universalidade da violência colonial retratada por Yizhar.
O narrador se recusa a participar da expulsão ou apenas reflete sobre ela?
Ele cumpre a ordem. O horror central do livro é exatamente a cumplicidade ativa: o narrador carrega os pertences dos expulsos, veda poços, demole casas. A revolta é interna, silenciada pela disciplina militar e pelo medo do isolamento social, o que torna o retrato muito mais perturbador do que o de um herói resistente.
Vale a pena ler se eu já conheço a história do conflito Israel-Palestina?
Sim. A maioria das análises foca em geopolítica, direito internacional ou narrativas nacionais concorrentes. Yizhar opera no nível microfísico da violência: o cheiro do pó, o choro da mulher idosa, o tédio do soldado, a banalidade do mal. É literatura que humaniza a estatística, indispensável para quem acha que “já sabe tudo”.
O livro toma partido de um lado (pró-Israel ou pró-Palestina)?
Recusa o binarismo. Escrito por um sionista socialista que lutou na guerra, expõe o crime cometido pelo “seu” lado sem absolvição, mas também sem transformar os palestinos em santos passivos — eles são vítimas silenciosas, confusas, dignas. A leitura incomoda ambos os extremismos atuais.